erva daninha a alastrar

terça-feira, janeiro 31, 2006

Privações


Quando nos vemos privados de fazer alguma coisa a que estamos habituados, parece que sentimos o chão a fugir-nos dos pés.
O meu computador está velho e cansado e não lhe apetece mais... Quando chego a casa, a primeira coisa que faço é ligar-me à internet. Ontem comecei a ler um livro e envolvi-me nele pela noite dentro. “Agradece o Beijo” da Ana Zanatti. Quando o acabar de ler falo dele, mas digo já que estou a devorá-lo. Quantas coisas diferentes nós não fazemos quando nos vemos privados da rotina a que nos habituamos?
Só nos lembramos de comer à luz das velas, quando falta a energia eléctrica. Quando as finanças estão na mó de baixo, inventamos programas muito mais criativos. Gastar 2 Euros numa garrafa de Casal Garcia bem fresca, bebida em copos de cristal na praia ao pôr do sol com uma boa companhia, é das coisas mais prazer me dá.
Como é bom atacar a rotina diária e fazer um programa diferente... mesmo que a isso tenha sido obrigado.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Queixa das almas jovens censuradas


























Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo.

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino.

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte.

Natália Correia

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Cinzento


Cinzento. É desta cor que começo a ver o meu país. Preto, cinzento, pálido. Cavaco lembra-me o tempo da tv a preto e branco. Nesta campanha eleitoral teve a oportunidade de anunciar que não vai fazer muitas viagens para fora do país. Os seus fiéis aplaudem, para quê viajar, é só dinheiro mal gasto. Salazar pensava o mesmo e tivemos o país fechado ao exterior durante 48 anos. Um economista deveria saber o quanto é importante que empresas estrangeiras invistam no nosso país. Por muito esforço que faça não consigo deixar de comparar Salazar com Cavaco. A imagem, a rigidez, naquele homem nada é natural, tudo é forçado. Não só detesto o embrulho, como o que está lá dentro. Eu sei que Cavaco foi a votos e ganhou, não com 50.6 do total dos votos, porque nestas contas não entram os brancos nem os nulos, mas ganhou.
Agora vou ter de aturar mais 10 anos de cavaquismo.
Não venha o Manuel alegre cantar vitória, porque também foi derrotado. Quer queira quer não queira, Alegre também faz parte da máquina partidária. Esse recente distanciamento em relação ao parlamento é pura ficção. Como irá conviver agora com os seus camaradas?
Continuamos a ter muitos preconceitos. Desde quando Mário Soares, apesar dos seus 81 anos, não poderia ser um bom presidente? Já o foi e deu mostras disso. Eu vejo as pessoas da 3ª idade, como pessoas activas, dinâmicas. Preferia Soares a Alegre.
A sede de mudança dentro do P.C. é evidente. Repare-se que apenas a saída de Carvalhas e a entrada de Jerónimo, embora a cassete seja a mesma, deu votos a esta força política. A renovação deste partido é urgente.
Garcia teve pouca votação, mas a atenção que lhe foi dada na campanha pela comunicação social, foi injusta.
Louçã, o meu candidato ficou aquém do esperado, mas como ele próprio diz, estes 5% fazem a diferença.
Há uma canção de José Mário Branco que diz assim: “ e sempre que Abril aqui passar, dou-lhe este farnel p’ra o ajudar”
Pela minha parte, vou continuar a lutar para dar cor ao meu país.

sábado, janeiro 21, 2006

O Meu candidato

O meu candidato é o Francisco Louçã. Em primeiro lugar porque gosto de escolher o melhor e não o menos bom. Tenho a certeza que se Francisco Louçã for eleito, não se vai esquecer dos menos favorecidos. Vou votar nele porque é uma pessoa inovadora e criativa. Procura construir uma esquerda moderna, ausente de ditaduras sejam elas quais forem. É um homem que diz o que pensa, incomodando interesses instalados na nossa sociedade. Luta pelo respeito no direito à diferença procurando a justiça social. Se houve algum candidato vencedor nos debates televisivos, esse candidato foi Francisco Louçã. É um homem que luta por causas justas e é portador de uma vasta cultura. Não ia nunca, depois de eleito, sugerir aos portugueses que não lessem jornais.
Muita gente me diz que gosta das suas ideias, que adora ouvi-lo falar, mas que não vota nele, apenas porque é um candidato que não vai ganhar. Não concordo. Só não ganha se não quisermos. Antes das eleições todos têm zero votos. Eu vou com muito prazer votar em Francisco Louçã.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

TEATRO




















Duas peças de teatro apresentam-se ao público português. A primeira, “A mais velha profissão”, no teatro Nacional Dona Maria, a segunda, “A mais nova profissão”, que anda em digressão pelo Portugal profundo. A primeira é em dois actos, a segunda é uma surpresa, pois ainda não se sabe se tem intervalo ou se é de um acto só.
A primeira, fala de 5 prostitutas, na fase da decadência, onde os clientes não aparecem... Na segunda, apesar das aparentes multidões, os que se abstêm são em número significativo. Na primeira as cinco mulheres vendem o corpo por uns míseros dólares, na segunda os actores vendem sonhos por um simples voto. Na primeira, as personagens fazem pose de boca fechada, na segunda a solicitação é maior e a boca dos intervenientes encontra-se aberta. As rugas são comuns às duas.
Curioso o facto de numa só entrarem mulheres e na outra só homens.
Talvez na primeira o autor entendesse que um homem velho não tem a sensualidade necessária que a profissão requer , e na segunda a inexistência de mulheres dever-se-à ao facto da mulher com uma certa idade ter a necessidade de ser sincera.
O importante é a arte estar viva.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

O Perfume


Desde que li o Livro, O Perfume, fiquei muito mais sensível aos cheiros, aos odores e a tudo o que inalo. É um livro que aconselho toda a gente a ler, especialmente pelo seu final inesperado.
De há uns dois anos a esta parte, sempre que passo na auto-estrada do sul, ali perto da zona de Corroios, um cheiro nauseabundo invade o interior do meu carro. Presumo que possa ser originado por alguma fábrica que ali se instalou. Penso também naqueles que ali vivem e que terão de levar com aquele mau cheiro a toda a hora. Será possível que em pleno século XXI, a câmara de Almada autorize a construção de uma fábrica que incomoda todos os que ali passam e também os que lá vivem? Será que ninguém faz nada para resolver este problema? A minha reclamação já foi feita para a referida câmara.

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Sexo na cidade

Tenho uma amiga que é louca por sexo e vai fazer anos esta semana. Não resisti e comprei um livro que vi no Continente. “Sexo na cidade dia e noite” é o nome deste livro de Lisa Sussman. Nele encontrei algumas dicas para as pessoas que gostam de fugir à rotina e que passo a partilhar convosco.
“Se vão de táxi, não liguem ao motorista quando estiverem a fazer festas um ao outro – ele já viu bem pior. Deixem-se cair no banco, num abraço apertado. Ela monta-o e faz o pénis dele sair cá para fora. O efeito total deve ser de um casal de veraneantes excitado, envoltos numa paixão assolapada. Grau de dificuldade - 1” (...) “Acrescentem mais uma pessoa à mistura. Mais duas mãos, outro par de lábios e outro corpo para explorar. Para uma mulher e dois homens, a posição mais fácil, é ela ficar de joelhos com o tronco levantado. Um vai pela frente e penetra-a. O segundo ajoelha-se atrás dela e abre caminho para a porta traseira. Ele pode inclinar-se para trás e apoiar-se nas mãos. Para duas mulheres e um homem, as miúdas devem pôr-se em 69 e darem um tratamento de boca uma à outra. Ele ajoelha-se atrás da mulher que está por cima e entra dentro dela. Grau de dificuldade – 100 para acontecer, 1 se o fizerem.” (...) “ Lava loiça – Ele levanta-se até à beira do lava loiça e penetra de frente (pode ter de subir para um banquinho para ficar ao nível certo). Podem abrir a torneira no spray e puxá-la para lançarem jactos de água quente um sobre o outro, para aumentar o entusiasmo. Grau de dificuldade – 2”
Pronto, agora é só darem azo à vossa imaginação. Fazem sempre a mesma coisa, agora não podem dizer que eu não ajudei... esperem, não precisam de começar a fazer já em cima do computador, cuidado com as teclas... olhem a câmara vai cair, pelo menos filmem para saberem como partiram o computador todo, cuidado, utilizem os vidros do monitor para outra coisa...onde estão a colocar o microfone? Nem vou ficar para assistir ao resto...Fui...

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Balada do Louco

Dizem que sou louco por pensar assim,
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz.
Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz.
Eu juro que é melhor
Não ser um normal,
Se eu posso pensar que Deus sou eu...
Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no ar,
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz.
Eu juro que é melhor
Não ser um normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu...
Sim, sou muito louco
Não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mais louco é quem me diz,
E não é feliz,
Eu sou feliz

Ritta Lee/ Arnaldo Baptista

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Entre o desejo e o destino

























O meu amigo Vicente Alves do Ó, depois de ter enriquecido o cinema português com argumentos inovadores, como o filme para a SIC “Monsanto” e tantos outros, estreia agora uma curta metragem onde para além de ser o autor do guião, é também o realizador deste filme nostálgico “Entre o desejo e o destino”.
A fotografia, não foge às origens do realizador, mostrando um Alentejo dos anos 60. A banda sonora é enriquecida com Simone a cantar os “Sonhos que sonhei” tal como os sonhos da protagonista que por eles dá a vida. Acabou num estante, queríamos mais, mas vamos todos ficar à espera da sua longa metragem.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Solidão



















Solidão – “Estado de quem está só.” (dicionário Texto Editores one-line)
Quando se fala de solidão, vem-nos ao pensamento as pessoas idosas, reformadas ou viúvas, que vivem sós e que se queixam de tal situação.
Mas a solidão, não se verifica só nas pessoas de idade avançada. Crianças jovens e adultos, dizem cada vez mais, sentir-se sós.
Na era da globalização, em que as comunicações entre os povos se fazem cada vez mais instantaneamente, tudo fazia prever, que a solidão desaparecesse. Pode-se hoje ter o mundo à nossa frente na tela de um computador com a ajuda da Internet, falarmos com pessoas amigas ou que nem conhecemos, mas não termos o contacto físico com nenhuma delas. A estrutura da família também se modificou. Cada vez mais surgem pessoas que compram ou alugam apartamentos sozinhas.
Dentro dos vários tipos de solidão, destaco algumas que me parecem importantes. Primeiro a solidão involuntária, é como um estado “do nada”. A falta da presença do outro, com quem queremos partilhar, trocar, conviver e que devido à sua ausência nos vemos privados de o fazer.
A seguir vem o melhor da solidão, a solidão voluntária. Essa sim, eu gosto. Estar só, por querer estar só. Para além do privilégio de se estar só, não se ter de aturar os outros. Estas hibernações momentâneas, são para muitas pessoas, uma necessidade nas suas vidas. Como que um reabastecimento de energias.
Por fim, vem a pior das solidões, o estar só, no meio da multidão. Essa é terrível. A pior de todas.
Estranho que nenhum dos candidatos à presidência da república tenha falado sobre a solidão. Será que se encontram sós, no meio das multidões?

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Alice para todos



Gostamos muito de rotular tudo. Dá-nos mais segurança, mais convicção e também poder de afirmação. “Brinquedos para crianças”, como se os adultos estivessem proibidos de brincar. Brincar mesmo na fase adulta é saudável. “Teatro para crianças” é outra das expressões que se ouvem muito, ou então “teatro infantil” como se o teatro fosse uma arte infantil. A peça de teatro que fui ver, “Alice no país das maravilhas" não é uma peça só para crianças, mas sim para todos.
O que o Filipe Láféria está a fazer agora no Politiema, foi o que o Fernando Gomes fez durante muitos anos no Maria Matos. As grandes produções em que tudo aparece, em que os actores voam no palco. Acho importante este tipo de teatro, mas não desprezo o teatro de 2 ou 3 actores, em que praticamente os cenários não existem, mas em que o público participa activamente e o próprio espectáculo nos obriga a sonhar.
A Alice entra num mundo fantástico, em que o rei é anão e a rainha é que manda, em que todos comemoram 324 dias por ano o seu desaniversário. Pelo meio ouvem-se frases que nos ficam na memória, tais como “quem não pensa não fala” ou “se queres alguma coisa é melhor ires atrás dela”.
Tudo isto, misturado com muita fantasia e ternura, são os ingredientes necessários para quem gosta de teatro, não perder esta peça.

quarta-feira, janeiro 04, 2006



















Diz-me que solidão é essa
Que te põe a falar sozinho,
Diz-me que conversa
Estás a ter contigo

Diz-me que desprezo é esse
Que não olhas p´ra quem quer que seja,
Ou pensas que não existe
Ninguém que te veja

Que viagem é essa
Que te diriges em todos os sentidos,
Andas em busca dos sonhos perdidos

Lá vai o maluco,
Lá vai o demente,
Lá vai ele a passar
Assim te chama toda essa gente
Mas tu estás sempre ausente
Não te conseguem alcançar

Diz-me que loucura é essa
Que te veste de fantasia,
Diz-me que te liberta
Da vida vazia

Diz-me que distância é essa
Que levas no teu olhar,
Que ânsia e que pressa
Que queres alcançar

Que viagem é essa
Que te diriges em todos os sentidos
Andas em busca dos sonhos perdidos

António Variações

terça-feira, janeiro 03, 2006

Uma paixão de morte



O poeta Alberto, que há alguns anos nos deixou, dizia numa das suas entrevistas que gostava de ler deitado. Se nas primeiras folhas que lia, começasse a abrir a boca e não tivesse interesse na sua leitura, deitava o livro fora.
Eu sou incapaz de ler um livro que no princípio não me desperte interesse. Por isso, não gosto muito que me ofereçam livros, gosto mais de ser eu a comprá-los.
Acabei de ler o último livro de José Saramago, “As intermitências da morte”, que por acaso foi oferta de uma amiga.
A ideia lançada, faz-nos reflectir sobre o que aconteceria se deixássemos de morrer.
Tal como no “Ensaio sobre a cegueira” o autor parte do geral, em que todos se vêm envolvidos numa determinada situação, existindo no entanto sempre uma personagem que foge à regra.
O livro lê-se muito bem, conseguindo o autor manter o interesse do leitor desde o princípio ao fim.
José Saramago vem-nos dizer neste romance, que o amor consegue vencer a morte.

domingo, janeiro 01, 2006

Passagem da Multidão



Sei que a cultura é também a identidade de um povo. Profissionalmente tento respeitar e comemorar as datas de maior importância. Pessoalmente, estou sem pachorra.
A comemoração da passagem de Ano começa a cansar-me. Já não estou a fim dos concertos de rua, tipo Praça do Comércio onde toda a gente vai, em que se apanham os banhos de espumante à meia noite e depois se vê o fogo de artificio, que por acaso é sempre igual. Os jantares em casa de amigos, numa altura destas, em que se come o marisco e à meia noite ficamos todos muito contentes, também já não me seduzem. Começo também a ficar cansado de ir a sítios com montanhas de pessoas. Dá-me mais prazer, sair a um dia de semana, onde os bares têm pouca gente, podendo-se conversar e beber um copo tranquilamente. No Verão procuro praias desertas ou com pouca gente. No Inverno já não há o perigo das multidões nas praias e pode-se ler um livro tranquilamente tendo como cenário o mar. Aos poucos começo a descobrir que me dá mais prazer viver ao contrário dos outros.
Quando digo que passei a noite de passagem de ano sozinho em casa, a ler, a ouvir música, com a lareira acesa, as pessoas não entendem muito bem, mas para mim foi uma óptima passagem de ano.